deserto_0

As lagrimas caem. Lembro de um dia, entre muitos semelhantes, onde a práxis se faz ignorante em um mundo prático. O teste existiu. O choro. As lagrimas… seguida por intensos sonhos de inverno.

Daquele tempo em diante, não consegui mais ser o mesmo. Às vezes, é como se eu estivesse fora de mim e me observando. Pode parecer loucura, mas é onde cheguei e cabe aos leitores de emoções ou os vampiros, avaliarem (mas confesso que só a minha avaliação basta, mesmo fazendo eu me sentir sozinho no mundo, perdido na multidão, sem esperança).

Eu vim de um tempo não muito diferente deste, mas sempre acreditei em algo que com estes olhos nunca vi. Será apenas um filme? ou retrato nacional, dos artistas de verdade? A sensação deveria ser a mesma de discorrer sobre uma vida, a artística:

“Querido público desta lugar, gostaria de falar dos meus medos: eles são muitos, e por favor, antes de desistirem de mim, me aceitem como eu sou. Aqui dentro há um mundo. Neste mundo temos todos os detalhes terrenos: a topografia, o clima, os olhos (sussurra)às vezes cerrados, e a depressão de uma alma velha – que neste caso, deixa de ser terreno e se torna sagrado. Mas calma, por favor, não se assuste com a palavra depressão. Há uma intensidade artística que dignifica os sensíveis da arte (e se conseguissem enxergar, diriam: é quase uma epifania da alma ou na alma), à um preço. O público absorve dos artistas o seu núcleo interno, sua compulsão, seu êxtase e seu brilho. Escutei uma vez que o oxigênio oxida. Logo, morremos dia após dia, ao curso de 90 anos. E há um preço pros artistas também. Da mesma forma que o oxigênio possibilita a vida, o público também, no ato da cena corrida para os fabulosos donos da arte. Mas, concluindo o que comecei: Se os artistas devem naturalmente se expor ao público (pois estes são os beneficiados), o que acontece quando não há público?. Pode parecer banal ou por vezes contundente, mas, desviar a ordem natural dos fatores, causam consequências avassaladoras – na alma, digo. Enfrentamos hoje, uma alcatéia artística, exacerbada de valores e sentimentos. Prontos pra cumprirem o seu papel. Mas cadê o público? “Coitado dos artistas, são tão depressivos e solitários”. Almas velhas, incompreendidas. Seguindo o curso natural dos 90 anos de vida, que oxidarão o seu corpo para só então, liberados deste, conseguirem dar vazão à alma e nesta, libertar toda sua epifania artística que aprisionar lhe custou a ausência nos encontros familiares e nos almoços de domingo, nas festas entre antigos amigos e outros momentos comuns para o público que jamais perde uma ocasião destes deleites. Algo está errado. Escrevo nesta manhã, pois acordei mais forte e precisamos de ajuda.”

(Não houve nenhum aplauso.)

Igor Florim

PS: Após assistir a pré-estréia do filme Deserto, de Guilherme Weber. Com minha querida Cida Moreira, grande Magali Biff, Lima Duarte, Márcio Rosário e outros. Assisti novamente há uns dias, A ascensão e queda da cidade de Mahagonny, de Bertolt Brecht, e me vejo agora num turbilhão de pensamentos sobre assuntos parecidos. A grandiosidade de duas obras. A necessidade de um novo olhar, ou de um novo afronte dos artistas, para este país.

Igor Florim