E em meio a essa eloquência de tentar ser (gritando, correndo ou fugindo) e enfrentando para me sentir sempre mais vivo, existiu então uma gota na ampulheta. Um corpo em processo de envelhecimento e uma alma criando raízes.

– Não fala isso por favor, eu já passei por tanta coisa. Hoje digo que eu me acostumei, mas não te esqueço. Eu te prometo, eu jamais te esquecerei.

Das coisas que ficam, mesmo quando tudo se vai. Hoje sinto todo o peso do mundo, e as recordações sempre me lembram que nunca deixou de ser assim. Um alienígena em viagem quântica.

Decidi não decidir, hoje mais cedo. Por loucura do universo, a vida sempre me mostra as coisas que não são novidade na minha mente.

Ando cansado de muita coisa e me afastar tem evitado fadiga – mesmo estando pelo umbigo, muito fadigado. Tem sido uma soma, tentando manter o equilíbrio.

Eu tenho tanto medo.

Essa noite eu te encontrei nos meus sonhos e assim que acordei, abri a janela da sacada pra você não ficar mais preso (nem mesmo aqui dentro). Isso foi a exatos dois anos, você se lembra? Fiquei ali na sacada, te vendo voar, mas nunca fui voar junto. E eu queria tanto! Mesmo com toda a dor no rosto e o nó na garganta. Eu queria tanto. E quando finalmente resolvi pular, não deu mais pra voar. Eu fui caindo… por muito tempo. Por favor, me desculpe. As asas haviam se soltado de mim e eu nunca notei. Me perdoe. Juro que tudo isso era só pra te ver livre. Mas eis que acabei fechando a janela por causa do vento, sem pensar no que estava fazendo. Acho que não deveríamos proibir o vento de prosseguir (mas estando sozinho e de janela fechada, ninguém nunca me lembrou desta frase escrita por mim). Por fim eu nem pensava no que aconteceria. Na verdade, eu nem pensava em coisa alguma. Só via o tempo passar, sozinho e pra sempre. Queria te dizer, que eu ainda continuo me suportando, estar sozinho não tá sendo ruim de um todo. Mas, fui obrigado pelo relógio (que me apressava pra crescer) a fazer silêncio em meio ao caos e a abrir sorrisos largos mesmo estando com a cara inchada. As cores começaram pouco a pouco a fazer eu me sentir vivo. Tudo isso quando eu olhei pra dentro e vi que não queria estar em outro lugar a não ser aqui e agora. Só então alguém me lembrou que eu ja escrevi sobre um lugar no céu que tinha vida por onde você passava, e lá, mesmo voando baixo, o azul-anil se projetava no meu umbigo (acabando com a fadiga). Fui dando alguns saltos, até aplainar num voo inteiramente meu – agora, conseguiria sempre sozinho. Eu conseguiria enfim, fazer todos acharem que não faltava nada, pois parecia realmente não faltar. Hoje escrevo pra deixar arquivado para sonos futuros, que o tempo continuou passando mesmo assim. Mas, nestes dias, ele passava muito leve. A brisa não me levava pra lugar algum. Só que nessa altura, eu já tinha conhecido todos os mundos.

Aceitei o seu voo e também a minha queda.

Com amor;

PS: Ainda saltaremos juntos, pra ninguém cair (com a ajuda da asa do outro).

Igor Florim