Continuo tentando fazer as pessoas entenderem coisas – após eu entende-las, ou achar que entendo. Mas hoje, fingindo ser aquele tal dia, a vida apenas segue. O tempo não deixa de passar e nos lembrar do que não fizemos. Um velho piano toca ao fundo do quintal, uma música clara e ligeira… as notas quase correm, como se uma câmera de metragens acompanhasse não uma cena, mas sim a partitura pintada à tinta, indo velozmente e dando vida à imagem e som às notas. Até onde a harmonia realmente existe? Qual então a lei de desarmonia pois, só existimos por darmos certo no meio de muitos erros. Poderia ler em um dicionário o significado de algumas palavras como sorte ou horário-de-verão, mas hoje é natal.

Como um instrumentista deposita seu sentimento à um instrumento… Ou o pensamento deveria ser o oposto? Explico: um cantor e um pianista expressam pelas notas que são por eles criadas. Não há acaso ou vida eletrônica, os instrumentos possuem vida só quando tocados. Encostando. Sentindo. Vivendo. Chorando. Carregando dores piscianas. A necessidade de sofrer pelas dores musculares. Só por sentir. Fui correndo ao jornaleiro hoje cedo, e diferente dos dias em que chego ao se fechar a banca, hoje, era feriado.

Talvez viver não seja de tanta magnitude assim e somos todos simples e básicos. Humildes e neutros. Toda a cor não passaria então, de pequenas estrelas num imenso vácuo negro universal. Vazio. No lugar em que ser vazio deixou de ser possibilidade e agora apenas termina. Acaba. Deixa de existir.

O fim da última pausa. A desistência de afinar qualquer piano que tenha restado. Os pianos acabaram, o quintal se perdeu em lixo e mato. Onde nada mais interessa e nada mais faz sentido. Nada move e nada precisa existir. Pronto: à partir de agora, nem nos lembraremos de coisa se quer. Realmente, nada aconteceu. Morreu. Ele se foi. O trecho do dicionário que explicaria futuro foi comida por insetos e, de mais, as outras palavras que também foram ingeridas não causariam grandes problemas por deixar de existir, como por exemplo: amor, 1984, suco-de-uva, tatuagem, presidenta, lembranças e relicário. Vale até ressaltar, para consulta espiritual que a palavra teatro também foi deturpada e hoje encontra-se em observação ilegal (Quando um setor do governo resolve administrar um seguimento oposto. Ex1: A agropecuária cuidará da educação. Ex2: O presidente mudou-se para o japão em temporada de férias. Ex3: *Importante: Palavras deste exemplo foram também ingeridas e esta observação ilegal não será averiguada pela lei.)

O último prelúdio em dó menor foi tocado.

A música acabou.

Igor Florim