Foi na mesma noite em que ele abaixou todos os escudos, abriu a sacada do apartamento e beijou a boca de todas as janelas e estrelas que olharam bem dentro. E completamente nú, notou que era muito mais forte sem aqueles pesados e duros escudos.

Dias depois aquele homem retornou. São tantas histórias e o risco que fazemos ao passar pelo tempo em que transitamos, deixa marcas profundas. Síndrome do pânico. Misericórdia. Pensei imediatamente no meu carro atolando numa tentativa de aventura com muita chuva e frustração. Pelo menos ele fez o que hoje estou fazendo, contou algo meu à alguem. Se foi na hora errada ou não, já passou. Agora ando forte, e nem sei que marcas me fizeram, mas sei que o que eu me defendia e ofendia o meu íntimo, hoje que caiu, se transformou em força. Ataque. Vitória. Nada que se esconda – ele precisava de uma nova chance e as pessoas tinham que ver isto.

Retornei com toda e qualquer abstinência – a tranquilidade tem aparecido aos poucos. A cada escolha: uma renúncia.

Pensei hoje durante todo o trajeto de carro, na estrada, sobre quais são os caminhos deste mundo e destas terras, que não permitem volta. Tradições. Estórias e contos. Liberdade velada e agressiva. Um revide à sua sombra: ele dava tapas em si à cada escolha vazia.

Tudo ficou pra trás e ele fingiu que seguia sua vida sem mim. Eu fingi que gostaria de seguir com ele. O mundo todo fingia alguma coisa e eu não sabia por qual assunto eu iria começar a parar de fingir. Fingir. Fingir. Que bosta! Damos importância para coisas completamente sem sentido… e a única explicação para isso estaria na cultura (dos dinossauros carnívoros e sem sal).

Tenho tido lembranças boas de tempos em que pela lógica, eu não estava vivo. Ou outros em que vivi nos primeiros anos de vida.

Uma locadora de filmes fechou. Agora é uma eletrônica de computadores. O ponto se transformou, mas a tradição de alugar um filme se fez extinta e agora inexistente. Toda aquela trajetória e cultura terminaria alí.

Assim é quando partimos… de algum lugar para outro. Disto que falo agora, alerto que o tempo é quem comanda e decide quando vens ou vais embora daqui. O poder das ervas, o contato com a terra e o deslize com as àguas pelo corpo. Místico, tradicional.

Um caminho sem volta.

Uma conversa, arrepio, soluço na veia: congelado em sonhos. Palavras.

Até onde iremos?

Eu nunca mais tive medo. Voei.

Igor Florim