Se eu fosse te contar sobre um anexo especial da história da humanidade, contaria sobre o apartamento que abriu suas janelas e sacada e nunca mais interrompeu incertezas dele mesmo. Os dois moradores às vezes viajavam e ficavam em outros lugares por muito tempo e mesmo assim, sabiam que o mais seguro era deixar tudo livre pra apenas passar. Sem aquela coisa de não-me-toque ou “cuidado com este quadro, ele é do século IV com reparos recentes do final do século XX. Tudo muito delicado emocionalmente mas poderoso em lucidez e força, pêra na cesta da cozinha (essas coisas…).

Lá tudo funcionava de uma forma muito democrática e as gerações desses homens poderiam frequentar o apartamento livremente quando assim precisassem, mas, com acesso trancado por dentro: quem dentro está, aceita ou não o interfone do porteiro. Coisas de combinados equivocados mas que te confinam à uma experiência única em São Paulo. Cachorro-quente na calçada do prédio, armários cheios de comida fitness, muita novela antiga com camarão no prato e vinho nas mãos pensando em tocar e cantar quase que sussurrando, Belchior. Disseram: acho que essa coisa é inclusive muito mais moderna pros dias de hoje.

Algumas das coisas que foram saindo deste apartamento, nunca mais voltaram e por obra do destino notaram transformações na íntima percepção de quando duas digitais se coçam. Finalmente algo havia acontecido e esses homens estavam deixando de ser o que não eram pra ser agora selvagens perdidos em fantasias de carnaval. Apropriando de causas que nunca tiveram fantasia. Aprisionando energias e vibrações que de modo acadêmico deveriam simplesmente fluir. Assim como a ordem do universo que é fluir… a ordem do apartamento, nunca mais foi a mesma. A porta enferrujou e agora podiam dar a desculpa: “Ah, vou entrar pela janela, rapidinho!”. Mais rápido que qualquer um, ele fez um lindo video pra demonstrar outra ideia que insistia em não sumir. Assim ele se fez seco pra se molhar só quando precisasse de um banho. Rival. Centro do Rio de Janeiro e muitos cigarros pra definir o que é lazer e o que é trabalho.

(É, ele fez grandes escolhas e iriam sair do pátio sempre que ele chegasse, porém, ele forte e feliz, via tudo mais bonito, logo, seus sentidos simplesmente escolhiam só o que lhe traria transformações, transgressões e qualquer tentativa de transcendência. Tome cuidado com as coisas que incomodam apenas à você. Sem música sobre o seu umbiguinho, por favor – não damos a mínima pra ele.)

Igor Florim