Quatro da manhã. Acordei pra muitas coisas. Resolvi planejar o meu dia e alterar completamente a ordem de tudo, talvez assim a ordem seja fluir. Fiz um belo café-da-manhã, lavei a sacada do apartamento pra deixar tudo fresquinho durante o dia e fui correr na academia.

Bati um novo record!

A prosódia desse dia, resolveu alternar coisas entre coragem e desafios. Vi uns conhecidos, cumprimentei outros mas me vi, sobretudo, me vi. Completamente livre.

Da liberdade que tanto venho falando, eu me refiro à liberdade de escolher onde se aprisionar. Aquela que definha com o tempo mas finge abrir a gaiola.

Alçar voo

Voltar pra casa

Se perder

No carro, voltando da academia, escutando uma velha rádio de MPB, vi um pedido de música: Esquinas. Djavan não sabe, mas o Felipe de Guarulhos decidiu nessa manhã, dedicar sua música para o parceiro dele: Arthur. Assim como definiu ele mesmo.

Fui me vendo. E por outras vezes mais, me vendo quase que sem parar. Pensei que eu deveria fazer o mesmo quando encontrasse alguém especial, mas, quando imaginei isso, sei lá se quis de verdade ter alguém especial. É muita coisa pra resolver nessa vida e até chegar lá, resolvi sentar por mais alguns minutos no sofá, antes do almoço.

Corpo aceso

Nenhuma pista

Só chama

Peguei uma velha panela toda riscada. A velocidade com que as coisas vão partindo de nós só aumenta e aquele prato de comida significava ao meu corpo uma transgressão.

Alívio

Ruminar

Loucura

Lembrei de quando adolescente: eu ficava no muro da casa da minha tia. O bairro se chama Iguatemi e fica no interior do estado. O muro era alto mas tinha um degrau que cobria o tapume daquele desnível. Eu subia ali. E empuleirado sobre o muro, conseguia ver a rua. Na época eu não me via ainda e talvez eu me procurasse nos lugares desconhecidos.

Era irônico pois quando eu chegasse ou saisse da casa, eu iria conseguir observar “pessoalmente”, sem um muro entre a gente. Mas espiar assim, me levara à um imaginário de apropriação sentimental. Questionar, aprender e ir entendendo. Ainda são coisas que existem em mim. Talvez eu estava me vendo. Talvez. Mas já era tarde demais. Pura sorte!

Pessoas

Cigarros

Marginais

Cara sem rosto e invisível para a interação familiar brasileira. Nunca olhe. Nunca converse. Não arrume encrenca. Quando na verdade, eu só via semelhanças: risada, pele e olhos, bermudas, cigarros, amizade. Tudo completamente igual ao que meus parentes eram ou faziam no muro do lado.

Poucos metros. Uma outra roda. Mesas e cadeiras desta vez… tinha comida também. O que levava aqueles homens para fora de casa, levava a minha familia para dentro. Sempre retraindo, fechando, empurrando guela abaixo: nada nunca foi regurgitado.

Mudo

Desinstruido

Desrespeito

Dos passos que vemos dar pra trás, cresci sem entender. Hoje em dia talvez eu seja o grupo que fica na calçada… mas continuo me vendo igual aos que estão pra dentro do muro. Sempre no fundo. Bem dentro.

(Eles só não quiseram olhar pra fora ainda)

A esquina distante do tempo, poderia se perder na história que o tempo rabiscara pra ninguém olhar. Resolvemos todos juntos e de mãos dadas (salve-salve) gritar com muita força, palavra nenhuma. O mundo dos não-julgamentos, escolhemos. E quem foi julgado parecia não se ofender.

Ideia

Lucidez

Equilíbrio

Vai muito além do que todos são. Talvez mais gente tenha observado algo nesta vida. Hoje, observei o sol. Por detrás do que cegava meus olhos, tinha um círculo, quase de giz de tão fosco e demarcado. O namorado da minha prima pixou aquele muro que eu escalava para olhar. Isso há quinze anos atrás.

Queimado

Aroma

Subterfúgio

Eu torrei a comida. Esqueci a panela no fogão. Meu corpo parecia cavar um buraco. O lance dos processos falhou mais um dia e eu decidi recomeçar. Vou correr outra vez pra ganhar um novo almoço…

Quem sabe de onde vem? (Do amigo de um conhecido da vizinha). A vizinha morava subindo a rua em outra direção. Ainda meio perdida ela passou à quinze anos atrás exatamente o que estou passando hoje.

Eu nunca pensei me ver assim.

(Fui sorrir naquela mesma esquina e, nunca mais fui o mesmo. Que bom. Destino.)

Igor Florim