Eu amo o jeito como amanhece.

O sol vai entrando pela janela… e tudo começa a ficar diferente.

No meio

No fundo

Bem dentro

Encontrei alguns cigarros na gavetinha do armário e aproveitei o embalo da lua pra fazer umas panquecas.

(De dentro, estes dias estavam me deixando respirar com calma, quase como nascer outra vez…)

Resolvi ascender. Voar. Ir pra muito longe e na profundidade descobrir como voltar quando meu coração só queria ir…

Descobri o quanto era fácil usar o fogão daquele apartamento, falando de cinema de um jeito que parecia ser uma paixão destruidora.

Sentei no sofá da sala.

Arreganhei a sacada e segurando o mesmo cigarro com a boca, me ajeitei (devagarinho: encaixei o prato no meu colo)

Vi uns escritos no fundo da televisão assim que relaxei as costas no travesseiro.

Meu pai sempre me dizia que os pequenos prazeres da vida são os que realmente não tem preço.

Um vizinho deu um grito muito forte.

Só agora percebi. Eu tava imaginando… teve um tempo onde tudo isso só existia aqui.

Na fresta

Janelas

Danço

O grito se alastrou. E antes que eu pudesse falar alguma coisa, me deixaram mudo.

Me vi falando de futuro só uns anos depois, quando todo mundo resolveu se acomodar na vida.

Fechei o livro, cansei de precisar sentir pra conseguir escrever alguma coisa.

Fui pegar outras panquecas e quando voltei, bomba: eu perdi o amanhecer. Foi tão rápido… algo sobre o céu e a terra e mais dessas coisas.

Talvez era o tempo a me dizer: quem sabe um dia o amor e a liberdade serão como num filme…

Realmente, agora eu parei. Fui buscar um ar. Eu me esqueci de você. Fiquei vendo como o dia se põe…

O sol, vai indo… leva consigo tanta coisa. E finge que nunca teve alí. Deixa só memórias e nenhuma prova.

Este foi o crime perfeito.

Umas noites depois eu era outra pessoa e resolvi dar uma festa naquele apartamento.

Dos questionamentos que eu me fiz, não cogitei observar quem era meu amigo de verdade.

Pensei tanto, tanto, que fui vasculhar aquela mesma gavetinha, pra me ver um pouco mais relaxado.

Acabou que eu me vi adulto. (Sussurrando:) Coitada da criança em mim.

Não me acostumei mas agora que o tempo era outro sairam matando os leões da vizinhança.

Vi uma brecha no que eu acreditava de mais bonito na vida e resolvi atravessar: eu me libertei.

Perdi uns quilos que estavam bem em cima dos meus ombros. Comecei a acordar todo dia com muita calma e fiquei tão leve que fui indo…

Fui me tornando outra pessoa, nem eu mesmo conhecia tudo de mim.

Numa noite dessas, enchi meus olhos de lágrimas.

Olhei em volta e vi o quanto eu já tinha andado… Percebi que parei de olhar pra trás (quando soltei no mar o que era triste dentro de mim).

Eu nunca mais fui o mesmo. Deixaram a gavetinha aberta…

Acabou sendo um convite pra mergulhar profundo mais uma vez.

A gavetinha também tinha se transformado. Ela era outra coisa hoje em dia.

Quanto mais fundo eu colocava a mão, mais poemas eu puxava de lá.

Eles contavam toda a poesia do mundo. Acreditei em todos e parti em viagem.

Parte da mala ficou naquela sacada e o resto foi embora. Porém mais feliz do que quando chegou.

A ordem do universo continuava a mesma: fluir.

Todo mundo tinha a liberdade de escolher onde iam se aprisionar. A poesia das aventuras continuava em movimento.

Eu fui tão longe que nem mesmo as velhas partes de mim estavam por perto.

“O tempo assim corre mais bonito.” – Anunciavam todos os jornais na manhã de hoje.

Agora tarde da noite (ainda não parei de me transformar), uma gaivota acaba de trazer de um lugar onde eu nunca fui, lembranças familiares.

Uma delas previa que esse era o tempo de um recomeço. Pela primeira vez na vida, não pensei muito. Não hesitei…

Fora da carta tava escrito: “Não tenha medo de recomeçar e olhe pra importância de se manter em equilíbrio.”

Resolvi por meio desta, adotar outras gavetas.

A ideia cresceu tanto, que nunca mais parei de me mudar. Fui morando nos lugares da minha alma.

(Lembrei que quando eu era criança, minha Avó me contou que estes lugares eram os únicos onde tristeza nenhuma sabia como chegar…)

Os dias agora rendem tanto que hoje antes de sair, tive tempo de lavar a cozinha e deixar uma porção de bilhetes na gavetinha mais velhinha do armário.

Um deles dizia:

“Leia com atenção as coisas sobre o mundo. Eu vou recomeçar, mas antes: obrigado pelas panquecas, estavam uma delícia. Você mora num lugar dentro da minha alma. Te vejo em breve.”

Fechei a porta. Nem consegui ouvir o barulho do trinco. Fora do apartamento, as pessoas começaram a chegar mais pertinho de mim.

Parece que agora todos entenderam o que eu dizia. Nem tive que repetir. Não sei quantos dias de vida eu ainda terei, mas, agora eu consegui reunir todas as partes de mim.

O tempo parou de correr… atravessei a rua e fui comprar um cigarro. Deixei a notinha fiscal na caixa de doações.

Lembrete pra não esquecer: Quando finalmente consegui ouvir o trinco da maçaneta se fechando, lembrei do medo que eu tinha de abrir aquela gavetinha.

Doía tanto dentro de mim, era um nó tão forte na garganta e uma dor tão amarga no meu rosto, que só agora quando mais nada dói, os comerciais e propagandas estão anunciando: “Viver é assim. Contemple.”

Parece tão simples, mas por algum motivo, foi esse o destino da minha vida. Alguém precisava fazer alguma coisa e talvez quem levantou o braço fui eu.

Eu amo o jeito como amanhece… Também deixei anotado a receita das panquecas. Deixe sempre todas as janelas abertas. Eu já vou indo…

Igor Florim