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Na janela entreaberta do segundo quarto, a energia era violenta e sem pressa. O não poder de evasão, custo-benefício, pulo raso de ideias, apropriações ou intensidade. Muito frio na intensidade. De longe identificavam algum sinal de vida, quadros na parede, cabelos no chão. Pouco ruído. Lado do peito, apartamento colado. Libertos. O não medo.

Numa outra perdida brecha logo abaixo, vidro todo aberto e um olhar sem julgamentos próprios, a moça via, enxergava e lia. Distante. Aquela era sua torre, seu salto-alto. 15 centímetros a mais, mais alguns kilos, solta… salto… saltou… foi aquele o momento em que a seguraram. Ela estava pronta e só continuou andando. De cima. Poderosa. Ilesa.

No mais prejudicado recorte urbano, próximo de referência alguma, viviam. Nunca soube notar qual era o tipo de lugar parecido que passarão, aqueles que agarrariam um outro sonho a mais, uma nova ideia pra se estressar ou um velho e bom restaurante ainda em Ipanema, em baixo do prédio. Gente estranha, vozes esquisitas e vizinhos. Paz.

Antes de olhar pra outro lugar, apenas sentou no banco de pedra que ganhara. A vida foi muito generosa com aquele pessoal. Todas as oportunidades de encontro… a desinformação sobre qual havia sido o último momento, quanto tempo dura essas estações paulistas e, fechou os olhos ao invés de olhar. Fenda no peito. Se conheceu.

Viviam agarrados sem ter pra onde ir

Paraíso num lembrete artificial de verão

Tudo nublado, estragou seu momento

Agora sem olhar, lembrava. Na ausência de qualquer nova cena que chegaria até os meus olhos, imaginei momento por momento. Trincheira que abre caminho, nunca desconexão, apenas nebulosa: já era tempo de perceber que já viu coisa demais. Oportunidade de recomeço para os filminhos… ainda de olhos fechados. O meu mundo.

Fui para um passado muito distante. Quase inacreditável: muito detalhe pra tanta despretensão. Nunca almejara talento algum mas uma série de novas perspectivas atormentaria sem cessar o orgulho do distante. Ele estaria se revirando no túmulo. Arrependimento. Quanto pequeno detalhe que não se lembrara. Viveu sem. Agradeceu.

Precisou se comunicar daquele jeito antes de ganhar força pra sair de dentro da janela que tanto atravessou seu sentimento. Ele conseguiu com isso, responder a pergunta de sua antiga amiga: não há mais medo. Só atravessou. Mesmo de olhos fechados e com um gelado que subia. Pouco a pouco. Fisgadas violentas, sem folga, sempre cortando. Gritou.

Era uma solidão tão grande, um vazio que estava junto, toda a vida em êxtase e só assim ele conseguiu lidar. Atravessando. Pensou muito, infelizmente. E pensar tanto assim o salvou quando toda a dor do mundo quase o matou (de tanto doer). Olhos fechados não escorrem. Já ficou pra trás e, já passou. Já passou. Virou força. Sempre fingiu muito bem.

Agora era o mundo que girava sobre seus olhos

Um caminho que libertara seu choro

Liberdade que ensinou a voar

Igor Florim