Hoje chove. Faz muito tempo que não escrevo pensando em arquivar os registros. Flagrar um instante, pra não sumir de mim… reparei bem fora na janela (peito molhado, prédios e aquela verticalidade toda). Muita loucura.

Talvez o fato de morar num apartamento trará a experiência de observar com êxtase o que um outro faz. Sempre pra fora e nunca pra dentro? Mirando, ruminando e quase não mais existindo.

Coragem nos dias onde tudo finalmente começa a acontecer. Não estar sempre no amanhã, quando o amanhã será sempre uma mentira. O hoje é tudo o que lhe foi dado e a parcela de sobreviver aos poucos tomou novos rumos. Sem exacerbação ou novos roteiros para assinar em baixo. Me vi com os camarões salpicando no molho de carne e quebrando esse costumo de caldos para peixes ou bacon e cebolas fritas para carne. Simplesmente assumindo novos fatores na praça Roosevelt numa terça-feira com o fim do sol.

É a primeira vez que eu venho num lugar assim, mas eu gostei de você, cantando. É muita coincidência, eu tinha certeza que você apareceria por aqui um dia (a minha tia sempre me dizia que a coincidência era uma das provas de Deus), mas não sei se você veio pra me libertar ou prender mais ainda.

Hoje me dei um momento de acender poucas luzes e escutar Dolores Duran (com sombras vindas pela janela). Um dia eu te disse que sua voz é doce e que ela não parece ser tua. Mas quando eu te olhava, era a mais perfeita combinação. Agora imagine toda essa loucura aqui dentro, dançando. Dançando. Janela. Doçura. Dentro.

Fui tão longe no universo que há em mim que agora só restaram rastros. Paralisados em pensamentos e imaginações, completamente perdidos… em crise existencial e num eterno stand-by do que poderia se tornar o mundo em mim. Hoje não.

Fechei os olhos

Havia um universo lá dentro

Mergulhei

Igor Florim