Passei um tempo escolhendo todos os mínimos detalhes que escrevo pela pele e com um futuro tão imprudente, idealizei atrevimento por atrevimento até que me sobrou uma falta de coragem que viria pra substituir páginas que nunca antes existiram. Era tempo de um novo intuito: quem sabe um dia o amor e a liberdade sejam como num filme. Recomecei. Foi mais simples do que pareceu e hoje era apenas eu e todos aqueles detalhes. Quase sem identidade. Escondido, desaparecido e em silêncio. Alguém pausou.

Me desesperei. Algo era tão intenso que não cabia apenas dentro do armário. Aos poucos o apartamento também ficou pequeno, o prédio, o bairro e perdido de tanto explorar o que era tão distante, tudo começou a se aproximar. Pouco a pouco todas as as cidades eram minhas cidades e saltei pra fora do planeta: fui longe demais. Me vi em suspensão, boiando, leve, distante. Em mim, tudo o que refletia. O sol sem piedade me queimava de fora pra dentro, ninguém me reconheceu olhando pra cima e o universo gritou bem alto.

Quase queimei as panquecas. Fazia tanto tempo que eu não escrevia (mesmo se passando apenas alguns dias) que eu até desacostumei. Os ciclos em mim eram tão intensos e apropriadores que como uma esponja, absorvi tudo rápido demais. Inflei tão forte que ao acordar as panquecas já haviam sido devoradas. O agora estava acontecendo com uma deturpação que borrava, alterava e corrigia qualquer tendenciamento. Eu nunca esperei que isso fosse acontecer. Não comigo. Respirei fundo.

No dia seguinte eu era uma pessoa que entendia dos detalhes. O amanhã, seguia sempre imóvel e quase inalterável. Ele era na verdade o mesmo dia, sempre e eternamente. Ninguém nunca poderá desenhar no amanhã sem que o mesmo o devore e o tire dos eixos, talvez como uma punição por ter bagunçado no que não lhe diz respeito. Até parei de pensar e olhei para o meu dia. Não me encontrei lá. Talvez eu havia ido longe demais e de tanto pensar, surtei. Precisei parar um pouco. Estacionei bem lentamente. Sumi.

Foi tempo o bastante para me desinscrever de tudo o que haviam me inscrito sem o meu querer. Lugares, sentimentos e pessoas que não me pertenciam e aceitar isso me libertava como nunca antes ao mesmo tempo que me machucava com todo o vigor da vida adulta. Lesão de dentro pra fora. Não era mais o sol que me queimava, mas sim, coisa por coisa do que não mostrava o que sou. Nada mais de meias verdades ou rótulos que não me pertenciam. Fui aceitando e foi muito difícil mas, passou. Rápido demais.

Eu precisava por alguma coisa pra fora

Teve que ser assim

O tempo passou rápido demais

O universo continuou gritando no meu ouvido

E eu nunca esqueço o que escuto

Igor Florim