Com o passar dos anos fui deixando muita coisa para trás

Algumas dessas coisas mesmo gritando bem forte, só eram audíveis no meu mundo quando ditas bem dentro dos meus olhos. E assim eu entendia sem exitar que soltar o que não se prende à mim, é a maior troca que posso ter com a vida.

E após isso esse é o tipo de momento em que o mundo volta a ser só eu

Com todos esses pequenos rituais, sempre libertei coisas e pessoas com um sorriso no rosto, do tipo: voe. E com uma força sincera e encorajadora, deixo com muita vida aquilo que encontro quase sempre morto e vazio, apto e pronto pra se recarregar dos pedaços sentimentais mais palpáveis e bonitos, dos que eu dou e nunca mais vejo por aí.

Essa vida que na realidade sai de mim parece às vezes nunca mais voltar e compreendo que o inverno vem vindo, trazendo consigo um vazio sem fim na expectativa de recomeçar. Outra vez, recomeçar. E como de costume, mais uma vez só. E me obrigando à rapidamente estar pronto pra outra. Quase um suicida ambulante ao passar dos anos. Eu me machuquei muito.

A única memória inerente que eu carrego desde a infância, é a de que eu sempre iria encontrar alguém que não estivesse fazendo nada além de me esperar. E esses encontros sempre me moveram para frente, como uma necessidade de ser eu em outra pessoa e não apenas do lado de dentro. Uma doação energética que movia todo um fluxo dentro de mim… me renovava ou me esgotava no mais bruto cenário. Assim fui crescendo.

A poesia desse tipo de vida transpassa como um vento que não podemos segurar… e todas as tentativas de prender o que escorre pelas mãos é sempre inútil e desgasta profundamente qualquer equilíbrio vivo.

A bem da verdade, percebi talvez tarde demais que grandes pedaços sempre foram levados embora nessas despedidas… e isso de encontrar alguém que nos espera, nem sempre aconteceu nos últimos anos. E ser só significa sempre não ter mais ninguém.

Para um mundo de aparências felizes e risadas bonitas, parece quase não haver lugar pra solidão existir… mas dessas e outras coisas, ninguém fala. E talvez eu também não fale, exatamente por não conseguir entender como toda essa vida que eu carrego, ao existir só aqui dentro (nos invernos) me faz parar e precisar respirar bem fundo – muitas vezes.

Deixar de dar vazão ao sentimento, arrastar pra dentro (mais uma vez) o que era quase pássaro livre pra voar bem alto, é de um peso que não consigo mais carregar. Este inverno, diferente dos outros, me fez aceitar a solidão e não apenas me preparar pro breve dia em que ela deixaria de existir, mas sim, viver. Viver mesmo que sozinho, como fiz em muitos momentos marcantes da minha vida, mesmo bem jovem. Alguma coisa me dava muita coragem.

Este foi o momento em que tudo mudou e foi o bastante pra eu voltar a me perder, como quando muito jovem eu só conseguia visualizar os dois extremos: mergulhar profundo e me perder nas profundezas de quem eu sou ou voar e ser carregado pela liberdade que não me da a escolha das direções.

Foi preciso pensar muito e abrir mão de tudo o que eu persistia em insistir. Nesse trajeto, muitas outras coisas ficaram pra trás… não havia nenhum resquício próximo para me alimentar energeticamente por mais um breve tempo e assim ir seguindo. Era agora só o lado de dentro, me maltratando como um turbilhão eufórico e agressivo, que deixou marcas profundas.

Essas marcas eram tudo o que restara. Cutuca-las era como ferir um machucado muito sensível… e pra superar essas fortes dores, precisei de muitas noites. Nessas noites o mundo parecia ter um peso grande demais pra resistir. Lutar contra a maré foi se tornando algo insustentável até que… parei. Parei mesmo.

Abri a janela com muita calma, olhei pra bem longe e enquanto eu cutucava dentro de mim àquelas feridas sensíveis, fui descobrindo um novo momento na minha vida em que eu superaria qualquer forte dor, tudo isso por me deixar levar pelas surpresas que vi no horizonte daquela janela. Fui indo… navegando a minha própria vida pra só então me descobrir.

Após esse momento foi preciso digerir tudo isso que era muito e que quase me empurrou à continuar sendo esse peixe que absorve como uma esponja e que se perde de tanto acumular tudo isso bem em cima dos ombros.

Recomecei (após achar que faltaria força para repetir um recomeço)

Ainda não sei o que ficou, agora que tudo se foi. Mais uma vez eu continuo sozinho, mas tudo ficou muito diferente. Deixei de me importar e quase que nas cinzas, notei a vida que vinha à renascer. Respirei com muita calma nesse dia. Eu nunca mais fui o mesmo.

Igor Florim