Em meio ao nosso caos

Um dia tentei te dar um conselho. Automaticamente ao abrir a minha boca, o mundo todo começava a desabar. A desarmonia se instaurou e todo o resto vinha explodindo em nossa direção.

Abri os olhos e respirei bem profundo. Era um daqueles sonhos.

Alívio instantâneo

Abri a porta e era você. Calmo, com vergonha e vivo. Naquele momento, você era você e ninguém entendia tanto essa aspiração de liberdade quanto o seu lado de dentro – cansado de tantos esconderijos. Seus olhos brilhavam.

Se esconder é como ir se atrofiando de dentro pra fora. Nada disso é você de verdade. Máscaras e tampões numa luta constante pra você provar que você é outro. Paralizações, sofrimentos, temores… o seu medo acabava contigo.

E todo este caminho te afastava do universo único que é ser você. Perfeito e possível apenas pra ti. Qualquer cálculo diferente deste te leva até uma atuação que dói ao interpretar. Rasga. Humilha. Deixa marcas profundas. Já atuei muito assim também.

Mas ainda enquanto eu abria a porta, vi seus olhos (vivos) vagando por todo o apartamento. E depois de tanto vagar e exalar a vida que você escondia cruelmente do lado de dentro, tu me notou. Foi o necessário para que vagassemos juntos em direção ao mesmo rumo.

Você

A marca no seu rosto. Sorrindo… sorrindo… sorrindo… me deu tanta energia que me atrevi a te contar quem sou.

Contei e notei que nunca havia feito isso. Contar quem sou…

Beijei a sua marca e acabei beijando você (pra te dar sorte) – afinal a sua marca só existia pra te lembrar da história de quem tu é. E, sabe… a gente nunca lembra dessas coisas. Mas aquela marquinha, era como uma fenda. A fenda de um mundo inteiro que se escondia ali dentro.

Olhei bem profundo. Vi tanta coisa que te abracei como se o mundo fosse acabar (igual no meu sonho). O abraço nunca acabou. Mesmo se um dia você fosse pra longe (pra se tornar aquele que foi embora) eu aprendi qual o mapa pra te encontrar, se você se perdesse sozinho.

Mas antes dessa possibilidade acontecer, entendi que ao invés de um conselho, eu precisava te dar a mão e ir com você até os lugares e pessoas onde te faltava coragem pra ir e enfrentar.

E fomos de mãos dadas e conversando sobre todo o tempo e vidas que passamos longe um do outro, entendendo o quanto era bom termos um ao outro e mesmo assim continuarmos sendo um mundo à parte – quando sozinhos.

Fiz tudo o que pude. Resolvemos tudo. Você agora só falava verdades e nunca mais se escondeu.

Até que um dia, eu ouvi de ti:

“Só agora entendi que ir embora, é ir até logo alí. Afinal, não da ir embora na expectativa de fugir (pois o mundo é muito pequeno) e fugir das pessoas que eu deixaria pra trás, significa fugir de quem eu sou, por não me aceitar ser.”

Nesse dia eu respirei bem profundo, igual no dia do sonho. E agora foi você que pegou na minha mão. Te agradeci tanto, tanto, tanto… que meu corpo ficou leve e voamos juntos pra longe

(Até os mesmos lugares que você coincidentemente queria ir tempos atrás, pelos motivos mais tortos possíveis – se libertar bem longe das pessoas que te conhecem e te amam, pelo medo da dor de ser quem é).

Foi a primeira vez que alguém segurou na minha mão – mesmo depois de tocar tantas mãos na minha vida (algumas por muito tempo) mas nunca tirar os pés do chão e nunca sentir de verdade.

Aquilo foi tão poderoso, que lavou a minha alma pra sempre – pois teria sido muito mais fácil eu procurar um outro alguém (“semelhante”) e não ir de mãos dadas com você só pra te ajudar a resolver o que eu já havia resolvido na minha própria vida.

Mas só te ajudando, eu me iluminava também. Aquele era o meu lugar naquela hora.

Te contei que tive o meu tempo de me descobrir e enfrentar o mundo inteiro. E que eu achava que esse período seria cinza, triste e muito demorado. Mas assim como você, no mesmo dia em que eu resolvi enfrentar, tudo se resolveu. O mundo dormiu em paz.

Às vezes o mundo só precisa disso… genuinidade. Nada mais. Nenhuma outra máscara ou interpretação brilhante para enfrentar a vida. Afinal a verdade já traz tudo pronto pois nós nascemos prontos pra ser quem só a gente é. E cada um é uma beleza única e à parte. Mas às vezes buscamos criar o mais difícil pra ir escondendo aquilo que brilha dentro dos olhos – a força da história de cada um (igual a força que a sua linda marquinha no rosto carrega).

Se tu não sabe quem tu és, significa que tu é outro.

Nosso abraço nunca, nunca, nunca se soltaria. Independente de onde estivermos. A minha mão continuaria sendo a sua força extra pra quando você precisar. E é só você sonhar que ao acordar eu estarei lá, bem pertinho e te dando um beijo da sorte na marquinha mais linda do mundo (da pessoa mais linda do mundo).

Pousamos e soltamos a mão um do outro. Me deu uma dor no peito, um nó na garganta… mas percebi que eu também precisava partir. Mesmo levando dentro de mim tudo aquilo que era nós – eu e você, entrelaçados, unidos, únicos.

Obrigado pelo voo

Nos vemos amanhã de manhã

Mas se antes disso você sentir algum dos medos antigos, enfrente com toda a força que só você tem. Eu acredito em ti.

Tudo mudou

Que bom que eu abri a porta do meu apartamento pra você entrar – depois de um sonho terrível, que me mataria em poucos dias.

Você me salvou.

Te salvarei eternamente também.

Respirei bem profundo

Mas dessa vez, não acordei de um sonho.

Vivia um sonho.

Tudo muda.

Igor Florim