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Foi quando o mundo me permitiu caminhar

Encontrei a vila dos desejos. Fiz meu pedido na fonte, caminhei solto pelas casas abandonadas e encontrei no vento que me soava os ouvidos um punhado de agressivas navalhas

Dizendo muita coisa

Talvez existam muitos seres por aqui

Algumas pessoas são apegadas demais e escolhem nunca partir de onde nasceram. Ficam lá – em suspensão. Talvez um dia morram de verdade parando de “raciocinar”

Como se já não estivessem parados

Empurrei com o pé uma velha porta que não queria abrir. Nasci nessa casa. A porta dava direto pra uma escada que descia

Fui indo

Notei algumas luzes que haviam lá no porão antes mesmo de terminar a descida

Coisas incandescentes

Senti uma respiração. Gelei meu corpo. Era como se uma voz respirasse bem no meu ouvido – conselhos de outros tempos. Para quem respira, este tipo de contato é um alívio. Mas para quem gela, o mundo quase consegue desabar em um único instante. Quando eu fui criança as coisas não foram boas. Me olhavam feio se eu fosse um pouco não masculino – mesmo que com apenas 6 anos de idade. Me reprimiam aos 7, 8 e todos os próximos anos com exceção dos recentes, quando me libertei. Mas quando criança se eu andasse rebolando sem querer ou falasse fino também sem querer, cuspiam fogo em mim. Um alienígena encarnado há pouco na terra

Festas de aniversário onde não comemoravam minha data

Mas aprisionavam minhas genuinidades

Tudo em mim era um erro. Os velhos olhares cortavam minhas asas na expectativa de eu não mais voar neste mundo onde todos apenas pisam firme na terra do chão. Era uma dor tremenda matar partes de mim. Mas foi assim que fizeram todos aqueles olhares da velha vila

Que agora já morreu

E tentou me levar junto

Consegui regressar no tempo um dia desses e fui correndo abraçar a criança que eu fui. Ela tava apavorada naquele dia. Se sentia um erro por nenhuma aprovação de suas mais sinceras ações ou expressões artísticas

Porém pior do que isso

Tremia de medo por dentro

Atuando sem parar para se proteger dos mais velhos

Foi assim que se tornaria um homem de teatro. Mesmo que sempre foi e facilmente resgataria suas lembranças de vidas recentes

Lembrei ele que nós somos autodidatas e todas as respostas estão dentro

Esqueça todo o mundo que não te quer bem

Dei força para ele seguir

Agradeceu o abraço e foi dormir

Deitou em paz. Pequeno, com menos de um metro de altura e alguns poucos kilos, puxou as cobertas e fechou os olhos para nenhum monstro se aproximar. Sonhava pela liberdade

Que quase nunca sentira naquele início de vida

Tiraram tudo

O cobertor

Os monstros

E quase todos os sonhos

A liberdade numa dessas quase se foi. Mas incansavelmente agarrava ela pra perto e se fortalecia com aquilo que chegava de bom

Subi as escadas. Não olhei para baixo. Deixei lá muitas dores e prisões que machucaram a criança que agora, era forte e poderosa por ser o adulto que é. E ao subir todos os degraus, abri a porta para a vila e sai cantando bem alto

Tudo aquilo que sou

Os olhos da vila fincaram imediatamente suas maldições em minha direção

Mas não resistiram ao brilho de uma alma livre como sempre deveria ter sido

E que canta no fluxo dos ventos para que as navalhas agora partam de dentro para fora

Cortando tudo aquilo que não se sustenta mais

Chegamos nos novos tempos

Foi um reinício em massa – todos os velhos olhares explodiram suas dores e sem mais forças, abandonaram a vila e todas as maldições que fizeram desde que nasceram

Foram crianças infelizes

Resistindo até o fim dos seus espíritos com estes mesmos atos, os que imita e reproduz seus próprios karmas para todas as próximas gerações

Rompi velhos costumes

Mas de outras direções ainda viriam novos olhares tentando acabar com essa liberdade

Porém

Eram fracos demais

E eu agora: forte o bastante

Mas se eu não sofresse tudo isso, não teria libertado aqui em praça aberta toda a luz que por muito tempo se prendeu no porão da velha casa

Libertei a vila

Libertei a criança

Libertei as velhas almas

E não levei nenhum rancor dos seres que tentaram me destruir na infância. Não olhei para trás. Mandei todos eles para bem longe. Aqui agora tudo se acalmou

Parei de cantar. Respirei fundo e voltei cantando, sapateando e chorando com uma bela interpretação dramática e tocando violino

Tudo ao mesmo tempo

Aplausos pequena criança

Sua dor agora é uma cena

Do espetáculo em que você é livre e canta fino ou grosso e dança rebolando ou não

Se desprendendo dos traumas que não nasceram comigo

Mas que humanos tentaram amaldiçoar em mim

Defeitos que eram deles e não meus

Não conseguiram

Mas doeu muito

Aplausos em cena aberta. Corri para a rotunda, peguei impulso e parti na direção da platéia: hoje eu vou voar.

O publico me abraçou.

A cortina acaba de se fechar.

Igor Florim