Parece que eu jantei faz pouco tempo mas já consigo ver o sol no horizonte, nascendo aos poucos. Por dentro talvez eu precisasse de mais muitas horas no meu eterno escuro para de repente dormir, descansar e ter a “noite” de sono que eu não tenho há tempos

Parece que o mundo todo mudou

E se eu for tentar dormir agora, ficarei pensando em coisas repetidas que martelam a minha cabeça, na expectativa de que eu raciocine que estou perdendo o meu próprio tempo. Que estou procrastinando e deixando coisas poderosas irem embora de mim

Sou o culpado por protelar tudo isso

A madrugada quase nunca terminou. Venho repetindo ciclos que não se concluem e nessas, não consigo finalizar o pensamento e dormir em paz. Fico lá – em suspensão. Parado, como se todo o funcionamento não fosse o bastante

Cego para tudo que faço

Mas agora o dia começou. Não dormi. Hoje eu vou trabalhar mais do que nos últimos dias pois preciso estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Venho orquestrando isso: estar em vários lugares. Não tem sido fácil desafinar no arranjo deste tipo de canção

Hora do almoço

Abri a porta do estúdio e só queria sentir o sol. Eu sou quase um zumbi e não mais um alienígena – mas um zumbi em pleno funcionamento. Indo almoçar sem rumo com um cigarro na boca e uns sete amigos ao lado, gritando coisas que nunca ouvi

Logo quem era meu amigo

Cheguei em casa tarde da noite depois de um dia inteiro de coisas que neste momento eu prefiro não lembrar. Vivendo o que não era meu. Levando o caos adiante. Uns dias depois eu parei, meu corpo adoeceu e eu fiquei de cama, reciclando o que eu sou

Até acordar muito bem

Fiz questão de fazer daquele dia o meu dia. Estou bem. Foi quase como chegar na praia de férias, depois de anos trabalhando no mesmo escritório sem direito à folga nenhuma. É claro que neste dia eu lembrei de todo o passado pois era o que há muito tempo eu só sabia fazer. Porém em seguida dei lugares à coisas que sempre viveram dentro de mim, mesmo que aparentemente mortas e enterradas

Escondidas do mundo inteiro

No escuro da minha casa. Cada canto. Cada frase. Sons abafados. A vazão de poucas lindas luzes que sempre escapam – dando vazão. Sim, o mundo agora é outra coisa. Tudo mudou e nesse novo mundo o mar de possibilidades supera o escuro de onde moro. Transpassa, transborda, transcende e ilumina cenas nunca vistas por outras pessoas além de mim mesmo

As coisas não são mais vivas aqui dentro

Elas fugiram para outros lugares. E não me dei ao trabalho de procurar, apenas segui sábios conselhos e fui parar onde nunca antes havia alcançado. Me surpreendi com a vista da janela agora que vejo o sol. Vou dormir. Essa é a escolha a se fazer

Hoje eu não vou viver outra vez a aventura de um dia como zumbi no trabalho. Hoje eu sou o meu próprio trabalho. Acordei saudável, feliz e com a criatividade mais aguçada dos últimos tempos

É o mínimo que eu posso fazer por mim hoje

Ser tudo o que sou.

Igor Florim