Eu não enxergava muita coisa nesse tipo de escuridão

Passos curtos

Medo de pisar em feras vorazes ou buracos profundos

Este mundo foi profanado

Há dias em que tudo está assim – breu interminável nas terras médias e mar revolto nas águas rasas

Todos resolveram ficar onde nasceram. Esperando o nosso mundo se curar. Alguém diz ser mais seguro do que andar pelos breus mas eu sigo como se nada de dificultoso houvesse pelo caminho

Apenas me adaptando ao novo modo de movimento aqui em mardok

Passos largos apenas para dias ensolarados que já não lembro do queimar

Muitos esfolam seus lábios nas rochas quentes expelidas lá do meio do mundo. Elas cobrem toda a terra do chão. Estes muitos, caem de tão podres que são e se arrebentam sozinhos no chão, sem precisar de ninguém de os derrubasse

Venho percorrendo cidadanias inteiras e não encontrei uma única pessoa pelo trajeto que já fiz

A bem da verdade, agora que posso abandonar vaidades e discursos, já que ninguém me vê ou ouve: vim em busca dos meus amigos

Trouxe comigo tudo o que eu tenho e tudo o que eles precisam

Vamos nos curar junto com o planeta e voltarmos juntos para casa

Seguros

Transformados

Até que estes amigos próximos se fizeram vistos anunciando recados importantes de um lugar onde dizem ser a saída deste planeta. Falam em um mundo de regeneração onde o vulcão central já fez o que aqui está fazendo

Expulsando tudo o que o mata lentamente

E colocando fuligem no meu pulmão

Durante minhas tosses silenciosas eu os perdi de vista

Sumiram

Faz muito barulho aqui, sinto como se nosso planeta fosse rachar no meio e cair oco lá pra baixo à qualquer momento

Nessas eu não sei onde eu vou parar

Eles eram meus amigos

E este tipo de traição profana um pedaço da minha alma para sempre

Existem caminhos que não tem volta. A impureza acabou comigo que começo a exalar fuligem de dentro pra fora, expelindo coisas poderosas rumo à mardok inteira. Também fiz minha modificação – o planeta não pode simplesmente apodrecer em lava desse jeito

Tudo desmoronando

Fogo ácido nos olhos

Lembro das últimas visões desta minha vida

E já de costas para mardok, entrei num buraco de paredes quentes e porosas

Invadindo espaços subterrâneos

Me espremendo em atmosferas densas demais para mim

Corda para descer mais fundo

Íngremes descidas

Vocês morreram bem aqui. Senti o cheiro da carne quase cozinhando pelo vapor da terra aqui de baixo

Raízes regando água para dentro

Não soube o que pensar ou dizer

Respirei profundo

Eu liberto os meus antigos amigos!!!

Voem acima da escuridão das cinzas vulcânicas que estarei me emaranhando em conexões primárias por aqui

Dentro do planeta

Como se eu fosse um mineral ou um ser elemental

Porém encontrei um núcleo inteiro de lava, logo ali abaixo

E saltei

Deixei de existir

Acho que virei mardok agora

Sou um planeta sideral inteiro

Rachando bem no meio

Trincou e fez um eterno zunido

Como se todos os seres e almas que trincaram junto, gritassem por mais existência

E mardok desabando pro fundo do universo como grandes cachoeiras de terra que cumprem seu caminho e esfarelam como pó no imenso universo que agora se desfaz

Galáxia desestruturada

Este tipo de traição me corroe

Pedras porosas de areia que também se esvaem para baixo

E o universo trata de recolher toda a sujeira

Isso se houver realmente a tal da gravidade lá fora para sugar pro fundo todo o resto do planeta

Caso contrário, continuarei traído

Digerindo e regurgitando mágoas profundas

Velho planeta este. Foi Deus quem o criou. Pobre planeta… morreu de vez

Acho que tudo acabou por aqui. Talvez este seja o renascimento do universo…

A superar pessoas que nunca conseguirei ver como inimigos

Pois precisariam da vida que não mais possuem para de repente ocupar este posto. E com este tanto de vitalidade que tenho, meu bem, eu não paro mais de transgredir

E além do mais, eles morreram logo após seguirem sem mim

Abandono por justa causa

Não aprenderam nada em mardok

Onde eu vim parar?

Ninguém nunca ouviu esta história toda

Mardok foi como um sonho.

Igor Florim