Chamam esse rio de violento

Mas mergulhamos nele como se mais agressivos ainda fôssemos

Enquanto por dentro, só queríamos um banho

Desses que lavam a alma

Fomos para a beirada da água

Bem rasinho

Sentados

Bunda e pernas molhadas e o corpo já se secando

Esse verão tem me feito ir para bem longe

Me surpreendi com o lugar. Você vem aqui desde sempre?

Desde que nasci

Sua cidade é linda.

Os últimos tempos da minha vida me reforçaram a ideia de que estou sozinho. E não, não estou me queixando e muito menos diminuindo aqueles que andam do meu lado e que eu amo com a minha vida. Mas sigo sozinho

Todos os dias

Acordo em silêncio

Começo a cantar baixinho e vou aumentando o volume conforme a minha voz quer dizer coisas

Do lugar de onde eu venho, a gente canta, bem alto

E expulsamos todos os demônios

Livres pássaros azuis

Mas ao pisar pra fora de casa novas coisas vão desabando em mim

Ninguém sabe mas eu me protejo fortemente

Sempre fui atacado

E isso também não é uma queixa. É do tipo de coisa que me faz crescer bastante e tolo eu seria se quisesse uma vida mais amena

Há 4 anos eu o deixei

Por dentro eu quase morria de comodismo

Não foi fácil deixar

Um dia desses um anjo me disse que eu nunca amei ninguém desse tanto

E eu sem pretensão alguma nunca cheguei nessa conclusão antes

Pois amei. E não me preocupava em muito em ficar pensando

Sempre achei que era possível amar mais ainda

Embora não me deslocar para longe seria uma morte precoce de tudo o que eu sou

E não vim para morrer tão cedo

Quero viver muito

Então parti

Há tantas coisas que nunca falo pra ninguém

Muitos me ouviriam

Mas nenhum estaria ali

De verdade

Nesses últimos 4 anos, eu precisei de alguns amigos

E na maioria das vezes, saí em silêncio dessa necessidade

Pois eles não estavam ali

De verdade

Não os culpo. Sou sumido. Tento resolver o mundo aqui dentro também e isso andou consumindo muito do meu tempo nos últimos anos

Mas depois de mais de uma tentativa com esses amigos

Vi que não era ali o meu lugar

Respeitei

Me amo o bastante pra seguir, ainda em silêncio

Mas seguir comigo dentro

Eu cuidando de mim

Risquei muitos desses nomes

Me magoaram, fortemente

E eu demoro pra parar de olhar pra trás mas quando paro

Dificilmente repenso o feito

Nunca quis o mal de quem não me quis por perto. De maneira alguma. Seja livre, vá embora… tudo no mundo tem que fluir

Igual aquele violento rio

Até esse mal que tu acumula ai dentro, escoe

Jorrando para fora

E atingindo multidões

Há uma coisa que preenche seu próprio corpo

É um mau que tu nunca vê

Mas te carrega pros lugares

Sugando a melhor parte de ti

E você deixa

É muito fácil se acomodar

E mesmo o mau, não é tão mau assim aqui nesse mundo

Permitindo te retribuir com muitos benefícios

Mas encostando em ti de uma maneira que quase não tem mais volta

E você nunca sairá ganhando nesse tipo de barganha

Vou me trocar. A gente tem que ir. Temos muita coisa pra fazer nesses dias

Esse chão

As folhas já quase decompostas na terra

Tudo muito fresquinho

Fui até meu carro andando sem pôr os chinelos nos pés

E ainda me neguei à calça-los quando aceleramos para longe

A estrada era viva

A sombra das árvores

O sol oscilando nos meus olhos

Aquele rio me resgatou coisas antigas

E ele não as levou para longe nas suas correntezas

E sim trouxe pra perto

Foi muito bom estar ali com você

Precisamos fazer isso mais vezes

É como se eu te conhecesse faz tempo

Mas realmente não conhecia

Chegamos

Sinta bem o cheiro deste lugar

É uma chácara

Muito velha

Obrigado por ter me ouvido. Saiba que não há outro lugar no mundo onde eu queria estar a não ser aqui

Contigo

Seu olhar profundo

Me dizendo tantas coisas

Quero te conhecer melhor

Explorações lunares

Já vai anoitecer

Jamais te esquecerei. Tu clareou tanta coisa

Segure bem firme na minha mão e conte comigo para sempre

É surpresa o lugar que vamos quando o dia raiar

Mas eu nunca mais vou deixar você ser escuridão

Você é a minha pele quente de todo o sol do dia corrido

É o vermelho do meu rosto quando fico sem graça perto de ti

E quando te escuto, paro de falar na hora

Decorando o seu timbre

Escutando o seu som

Soa como a paz que o silêncio nunca me trouxe

Soa como o início de uma nova era

Eu não sinto mais medo algum mas é chocante analisar todo o medo que eu já senti

E o quanto tudo isso me paralizava

Índigos sentem medo

Mas um dia, alguns transpassam tudo isso

Para cristalizar coisas novas

Eu amo a sua risada

Não ligo de repetir belos dias como esse se você topar

Na verdade, é tudo o que eu quero fazer por enquanto

Tu olha nos meus olhos o tempo todo

E desse jeito, fico vendo profundidades sem parar

Todas em você

Tu é um mundo

Obrigado pelo banho.

Igor Florim