Talvez tu nunca seja o meu grande amor

Mas um dia desses quando vi uma parte triste de ti passar, notei que era tanto do que eu sou que te convidei pra vir comigo e esquecer dessas coisas passadas

Talvez tu nunca aceite o meu convite

E continuaremos presos nesse passado

Porém nessa noite eu te encontrei nos meus sonhos

Tu visitava a casa que eu nasci e morei até os meus dez anos de idade

Era você com alguns dos seus amigos que te protegiam e te fazia exalar com coragem todo o seu humor e charme

E eu rindo de ti, tentando disfarçar o quanto estava apaixonado

Talvez esses joguinhos tenham sido o nosso maior erro

Até que certa noite era apenas você e eu

São Paulo estava com aquele ar gelado e aquela brisa lunar. Você me mostrando um lugar qualquer perto de onde você mora e eu lá – te mostrando outras partes do que eu sou

Não sei se tu percebe mas eu não faço isso há anos

Mesmo com várias oportunidades vazias dos que chegaram até mim mas diante do vazio, eu consigo no máximo escrever um inédito conto poético ou outras coisas artísticas mas nunca mergulhos profundos no que não existe de verdade

O vazio é uma possibilidade, eu sei

Mas nenhuma delas me conquistou

Eram vagas demais

Até que no primeiro silêncio entre nós dois tu parou, respirou bem fundo e virou o rosto pra mim

Era o seu mundo tentando me encontrar

Querendo ir além

Sentindo algo a mais

Tu estava nu dentro dos seus olhos

Sem máscaras ou interpretações sociais. Cedera ao meu encanto

Quanto silêncio entre nós

Não sei dizer o que acontece conosco. Tenho vergonha de dizer mas eu queria só te abraçar com toda a minha força na expectativa de tu sentir o que estou guardando para ti

Embora tentarei nunca te machucar

Nunca

Minha força é só para acordar sua alma

Dançar a sua dança

Há uma vida em ti que se completa com uma coisa que sempre esteve aqui dentro

E nunca me permiti andar por lá

Resolvemos então, sair andando

Ainda sem o abraço

Ainda com tudo isso preso do lado de dentro

Talvez esse flerte nunca acabe

Passos e mais passos só aceleram estes corações e quando o teu rosto novamente me olha, preciso estacionar. Interromper o fluxo. Quero um mergulho dentro da nudez que é você

Tu se liberta comigo

Embora não perceba mas tua alma é o ser mais livre que eu já admirei

Porém entendo a dor que te consume

Respiramos profundo, ainda no silêncio

Sentamos na grama gelada

Me aproximei na primeira oportunidade, fingindo que nada de anormal acontecera

E tu responde o movimento sem exitar a aproximação

É a dança mais linda que eu senti nos últimos anos

Seus olhos que já me consumiam chegaram o mais perto possível da minha alma e tu encostou a tua testa na minha

Ficamos parados respirando o mesmo ar

Não sei se um dia tu irá ler este conto

Mas saiba que até me acanho ao escrever sabendo do poeta que há em ti

E foi essa a minha solução para tentar ir além, explorar os versos que é você, rir do que tu me conta e me encantar com essa beleza toda, dentro e fora de ti

Eu não queria estar em outro lugar agora

Ainda com a sua testa colada na minha, me embriagando nesta respiração, sugando o seu ar e te devolvendo com as pistas do meu ser

Tudo isso sou eu

Essa é a minha dança

O medo de afetar a sua energia

De te consumir sem querer

Ou de ser leviano demais ao te ouvir

Pois entenda que quero ficar eternamente assim, navegando nestes seus olhos, mergulhando na sua alma e aguardar sem pressa o beijo que já existe mas ainda está apenas lá – distante alguns milímetros

Tu fechou os olhos

E quem sou eu para interromper esses processos?

Todos os meus sentidos se aguçaram na sua presença

Agora sem enxergar, escuto o barulho das árvores, o silêncio da grama para vigiar se nenhum perigo se aproxima e o cheiro que existe dentro de ti

Algo doce como o vento

Que corta nossos ouvidos

Mas não nos faz gelar pois esse calor todo que nos consome é o que nos trouxe até aqui

Acho que vamos ficar exatamente assim durante muitas horas

Afinal, não há outro lugar para irmos

Nenhum possível beijo é tão imediato quanto esse tempo paralisado, essas testas coladas, narizes entrelaçados e nossas mãos subindo pela nuca, sentindo os cabelos, penteando essa energia toda

Talvez um dia a gente interrompa esse momento

Espero que seja num beijo

Ou em um convite para agora ser a sua vez de ir conhecer um dos meus lugares quaisquer da nossa cidade paulistana

Perto da minha casa existem belos caminhos

Se tu aceitar a gente explora juntos o mundo

Mas nessa noite eu não irei além

Não contarei o que vem a seguir (diante do ser racional que eu sempre sou) pois afinal eu nunca estive assim com alguém

De olhos fechados

Nus

Vivos

Explorando uma lenta dança que começara junto com o luar

Essa brisa leve

Tua voz macia

Teus lábios que encostaram nos meus

E novamente – quem sou para não dançar a tua dança

Respiramos profundo

Mergulhamos um no outro

Era a nudez mais completa daquele anoitecer

O mundo parecia outra coisa, acho que comecei a viver só agora

Pois depois de ti, notei o quanto tudo é belo

A vida tem os seus encantos

E te encontrar perdido por aí, foi a mais bela dessas magias

Tu é um feitiço para mim

Dos mais poderosos

Que me obriga a te amar

Ou apenas suspirar com mais um conto escrito

Como se tudo isso fosse real – e é, de olhos fechados, respirando a nossa respiração

Obrigado por me trazer no seu lugar

Parece até o quintal da sua casa

Pois foi aqui que eu te conheci de verdade

Neste gramado tu se entregou e parou com qualquer joguinho

E agora que tu me beija, irei também beijar junto

Na poesia mais completa que eu já vivi

Era você ali comigo

Sua alma é linda

Seu rosto e seu corpo, mais belos do que o mundo

Acho que eu já te conheço

Só assim pra eu ter seguido na sua direção, mesmo sem motivo algum

Era um nó na minha garganta que me movia para perto de ti

Que me fez ficar preocupado com o seu sumiço

E durante todo aquele tempo, pensar nas poesias que somos

Seus lábios são histórias

E no momento, todas elas estão em mim

Beijando a minha boca

Me contando baixinho o que sente

E eu pedindo pra tu ficar e ainda sim, querendo que tu seja cada vez mais livre

Pois é isso o que somos

Essa liberdade toda

Tu cedera ao meu encanto

E depois do beijo, te abracei com toda a minha força

Entenda, eu já senti esse abraço antes

Ao ponto de que não sabemos quem abraça mais, você ou eu

E só ficamos lá

Cedendo

Compondo

Essa música somos nós dois soando junto

Como se o mundo nunca fosse acabar e tu nunca me soltara

Embora…

Eu preciso te ouvir

Me conte tudo o que tu aprendeu

Esse livro é você

E quero apenas folhear

Ler esses versos

Entender dessas rimas

E cuidar igual cuido agora, de olhos fechados, ouvindo todos os sons

Estamos seguros afinal contigo eu jamais deixaria de estabelecer sua proteção

É o que eu sou

Esse abraço

O respirar

E a máxima atenção quando olho no fundo dos seus olhos

É o lugar mais lindo que eu já vi.

Igor Florim