No final de cada tarde, após dias bem agitados, os jovens se encontram no alto do vale em que moram

Observando o tempo

Transgredindo dificuldades

Se encontram com eles mesmos

Por vezes ninguém fala nada

Encontramos um lugar para sentar

Jogamos tecidos no chão

E é o seu momento de reconexão

Ninguém tem força o bastante para verbalizar as primeiras palavras

Alguns até se levantam para a oratória mas caem do alto no vale, despencando morro abaixo rumo à vila de onde viemos

Voltando automaticamente para os seus trabalhos diários

Até tentamos ajudar com a queda, é uma descida brusca

Porém todos iremos cair

Cedo ou tarde

Então ficamos lá, pensando, agradecendo, meditando, essas coisas

Esse é um daqueles dias em que não entoamos o som

Não temos boca para isso

Não hoje

Aquele amigo que caiu ainda ecoa dentro de nós

Foi uma queda tão triste

Choramos muito por avistar essa cena

É mais um que morre

Que deixa de sonhar

Empurrando seu corpo para o solo

Reprimindo a criança sonhadora que foi

Agora é apenas dinheiro

Se cansou dos sonhos que nunca se materializou – embora ele os libertava tão pouco

Resolvendo se jogar de vez no dinheiro

Foi direto pro escritório depois que rolou daqui do alto

Ficamos mudos encarando isso

É o que mais tememos

Matar nossos sonhos

Choramos por este amigo morto

E por mais que nós daqui do alto somos bravos sonhadores e não iremos desistir, há dias em que as coisas caem assim subitamente

E nos resta aceitar

Pra não dizer – desabar junto

Afinal desabar jamais

Quando chegar a hora de cair, cairemos de maduro

Em pé

Pousando em vigia

Continuando a vida

No dia de amanhã eu irei escrever diferente. Não repetirei esses velhos erros. Nenhum de nós nunca mais irá cair assim. Somos fortes o bastante para puxar aqui para o alto por longas cordas, todos aqueles que não conseguem subir

Mas desabar nunca mais

Quando nós voltarmos a falar irei contar esse fato para todos eles. Mas até lá, estamos chorando

Foram duras quedas

Presenciei todas

É o que eu sou

Essa visão nua e crua

Ou a lágrima (que fisicamente nunca cai)

E por vezes só consigo meditar

Recuperando os meus sonhos

Limpando o meu olhar

E nessa busca todas as tardes estaremos aqui no alto. Estamos progredindo e não vamos parar

É só mais um dia

Tentem não cair.

Igor Florim