Eu vou subindo na frente. Te espero lá em cima

As paredes desse lugar tem ouvidos

O som dos meus passos no escuro e eu só danço, eu só danço

Me lembro bem dessa música

Ela foi escrita por mim

Há muitos séculos atrás, numa vida antiga

Olhe para este céu

Venha

Entre na água comigo

Sou o seu amante mais quente

O que veio pra ficar

As paredes curiosas ouvindo tudo

E a gente dançando

A vida é sempre um último trago de um último cigarro de maconha

A contemplação de um ápice espiritual que vem em seguida

Você precisa ir embora?

Ah, tudo bem, claro

Adeus

Peguei a chave do meu carro, não olhei para mais ninguém

Acendi um outro cigarro

Fumei me arrumando, esperando o último trago

Com a cabeça no lugar entrei no meu carro e segui sozinho tudo o que eu sou

Já fumei o bastante, não preciso de mais

Estou bem feliz assim, acelerando, notando o que me resta sem nenhuma pressa

Talvez com tudo o que me interessa, minha mochila no banco da frente, carteira jogada no chão, neosoro, garrafas de água em baixo do banco e completamente saciado, sem fome alguma

Em rota virando na sua rua, procurando o seu nome no muro mas não encontro nada do passado

Quem sabe seja porque o tempo passou e nada do que era eu e ti sobreviveu

Sou um tigre solitário desde então

Com tanta força mas preso num hiato temporário

É nisso que eu sou bom

Em recomeços

A minha casa está vazia. Ela é nova

Gastei tudo o que eu tinha, todo o meu dinheiro

As preocupações que não me deixam dormir vem para matar partes velhas de mim

E é impossível deixar de existir

Mesmo com todas as minhas partes morrendo, é impossível a não existência

Eu já morri muitas vezes

Venho lembrando de ti nessas mortes

Um dia desses eu conversei com um espírito e ele lendo a minha mente me disse uma coisa que ninguém nunca me disse

Ele enfatizou, sem eu ter mencionado nada sobre ou nome algum, que eu amei demais

Ninguém nunca notou isso

O quanto eu amei

Lembrei com carinho de tudo o que eu fiz por este que eu amei demais

Foi tudo tão leve

A gente se amou mesmo

Até que precisei partir

Acelerei esse carro

Acelerei mais ainda esse carro

Eu sempre soube o que vem em seguida

Essa é a minha vidência, saber do futuro que vem em seguida

Estacionei com calma

Essa casa é o meu lar. É tudo o que me restou

Eu poderia rimar coisas lindas sobre a jornada que são os meus dias

Encontrando alguma poesia perdida, um conto ofendido, algo que se eu não escrevo é esquecido por mim e vai para outra pessoa criar

Afinal é impossível deixar de existir

E a partir de hoje muita coisa começa a viver em mim novamente

De repente o amor e a liberdade seja como num filme

Novamente descobrindo vidas

Limpei todo o chão, note como brilha

É disso que estou falando

Coisas que eu nunca fiz e que venho me preparando há séculos

A minha e a sua vida são grandes teatros

A gente ensaia muito pra sem querer esquecer a maioria das coisas ensaiadas

Enquanto isso fui lembrando de tudo

Retomando o meu mundo

Você sabe que eu não desisto

E a noite se aproxima de verdade a partir de agora. O meu bailado também

Eu dançando no escuro

Dominando todos os movimentos

Manifestando quem eu sou

Celebrando um momento de cada vez

Notando a eternidade do mundo.

Igor Florim