Ontem eu passei o dia levando a minha mudança para uma nova casa

Fui robótico no processo, a sensação é a de que eu estava no modo automático e quando vi o dia passou por completo, terminei de trazer todas as coisas e a noite caiu profunda

Talvez eu não quisesse pensar muito nesse processo

Talvez eu não desapeguei da cidade onde eu morava até ontem

Desmaiei no colchão e acordei no primeiro dia dessa nova vida

As coisas são assim

Às vezes mais fortes do que nós

E eu aceitei todas as coisas nesse último mês. Eu não tive a opção de ficar, precisei partir

Assim, instantâneo como quando eu fui pra lá

Deixei todos os meus amigos num outro lugar e agora repito esse desafio

Vi a minha vida por um fio mas eu só quero viver

A vizinhança é tranquila

Me receberam em harmonia, cantando sem desafinar

Essa rua tem sua própria rima, suas histórias… e dizem que ao anoitecer, você se torna realmente você, aceitando o seu passado

Abri o portão de casa para jogar água em tudo

Quero lavar o meu novo mundo, espantar os demônios absurdos e quem sabe cantar para os meus vizinhos

É assim que lidam com a vida por aqui, cantam rap nacional como protesto político

E todos são amigos

Se olham, se entregam sem nenhum conflito – E logo eu, que atualmente quase não me entrego para amigos resolvi me aventurar

Notem a minha voz

O meu vibrato veloz ou lento, canto tanto que eu deixo para o vento essa coisa de divulgar a minha rima

Sei tão bem quem eu sou, que nessa solidão toda isso é tudo o que eu colhi, nenhum sofrimento mas todo o amor próprio possível

O auto conhecimento, o resgate da memória sobre quem eu sou

Para agora me permitir

Mas não repitam o meu processo

Talvez seja uma nova vida o que eu preciso

E é isso que esse novo lar me traz, um novo sentido, novos amigos e esse lugar distante

O ar úmido da floresta nos arredores de Zodiaco, essa cidadezinha perdida

Mas é aqui que deposito a minha vida

Aquela modernidade da capital terá espaço por aqui

Cantaremos pela igualdade social, Zodiaco é um progresso político nesse estado envelhecido

Meu bem

Quando vem me visitar?

Abrirei as portas do meu lar para ti, afinal você é como meu irmão que dividi o quarto durante a infância toda

Aquela briga instaurada

O domínio pelo espaço

Mas a completa entrega, ele sabe o que eu faço

Você me visita pra participar da minha vida

Não há nada para julgar, nunca nessa vila

E os vizinhos já acordam cantando

É lindo escutar a música calma dos libertos dessa nação

Foi aqui no interior que o mundo mudou de dentro pra fora

Não importa o que o governador diga, se não diz com lucidez não absorvem para essa vila

Somos apartidários por natureza

Fechei o portão

Fui te mostrar a minha nova casa

Me perdi de ti

Talvez cansamos um do outro

Não. Só caímos numa velha tentação

São as energias tentando atrapalhar a nossa vida

Mas comigo não

Não permito essas agressões acima

Querem que eu me perca mas resgatarei mais alguém comigo e não iremos nos perder

Pois essa revolta sou eu

A constante luta pela liberdade

Não desisto do meu sonho

E não importa qual a minha idade

O que essa cidade me ensinou não é só tempo perdido

Aqui estou iniciando o meu novo ritmo

E o que eu quero é cantar.

Igor Florim